"Vocês, os mais novos, vão encontrar belas coisas para fazer... Nessa altura, se o merecer, lembrem-se de mim."

entrevistado para o Jorna "Repúblical", em 27 de Março de 1963

"Se um dia alguém me perguntasse que aprendizagem deveria um jovem fazer para chegar a romancista, se o ofício se ensinasse, eu diria que enquanto a vida lhe não desse todas as voltas e reviravoltas, amores, sofrimentos, repúdios, sonhos, frustrações, equívocos, etc., etc., (...) seria avisado que o mandasse ensinar a sapateiro, não para saber deitar tombas e meias solas, porque nem para tanto ele usufruirá, às vezes, com a escrita, mas para que ganhasse o hábito de padecer bem, amarrado ao assunto durante largos anos, antes que provasse o paladar gostoso de algumas horas de pleno prazer. "

nota inédita

"Afigura-se evidente que à literatura não cabe resolver problemas económicos, sociais ou políticos. A afirmação não valeria o trabalho de escrevê-la, se não aquietasse certos pequenos budas. Mas não é de menor evidência que todos eles pertencem ao foro humano e que à literatura se deve consentir que surja sempre como a voz do escritor que a cria."

do livro "Gaibeús", 6ª edição, pag 30

"Em todos os meus livros há sempre uma busca e há sempre uma experiência. Tenho uma visão do mundo, como é natural num homem que também é escritor. Conheço, por outro lado, o nosso país e muitos dos seus problemas essenciais; convivo com outros homens tanto quanto posso, fazendo uma experiência activa. Quero dizer com isto que não espero exclusivamente que a vida me entregue os seus frutos, confinando-me às recordações e aos acontecimentos quotidianos do citadino que hoje sou. Penso que, se o consentisse, seria fatalmente um homem mais limitado. Aproximo-me então do que me interessa, assistindo a mais acontecimentos, conhecendo mais gente. Depararam-se-me assim muitos problemas humanos. E como gosto de viver, meto-me nos meios que se me revelam mais expressivos ou pródigos, compartilhando dia a dia da vida dos que a vivem.(...) Muitas vezes, é claro, ao fim de certo tempo, abandono essa convivência por me parecer muito pouco viva ou significativa. Noutras deixo-me ficar longos meses, quedando-me ali, não passivamente, mas procurando tudo aquilo em que o homem se pode revelar ou definir. Nunca levo o tema. Seria absurdo. Espero que surjam vários no próprio meio em que me procuro enraizar, persigo-os, tento senti-los quanto me é possível. Nada evito para os aprofundar, e aguardo que se imponham, que surja em mim uma necessidade premente, quase angustiante, em os revelar. Com essas raízes da realidade a imaginação ganha as suas."

entrevistado para a "Gazeta Musical e de todas as Artes", em Janeiro de 1961 nº118, pag 176